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Museu Recife

Por Walter Garcia

Para os mais atentos, Recife é um imenso museu de arte a céu aberto, pronto para ser visitado. Graças a uma lei municipal de 1961, os prédios com mais de 1.000 m² de área construída só recebem o alvará de construção se na planta do edifício já estiver especificado o local onde serão colocados a escultura ou o painel. Qualquer um dos dois deve ser encomendado a um dos artistas cadastrados na prefeitura da cidade. Obrigação, que, segundo o escultor Jobson Figueiredo, acabou por transformar Recife no maior museu de arte a céu aberto do mundo.

A lei acabou por permitir que artistas famosos como Abelardo da Hora, Jobson Figueiredo, Corbiniano, Francisco Brennand, entre tantos outros, invadissem o cotidiano de turistas e recifenses. “Rico, quando quer ver obra de arte, se engravata e vai para o museu com ar condicionado. Eu não, eu só passeio pelas ruas”, diz o pedreiro Juvino, que, de tanto colocar esculturas em prédios da cidade, foi atraído para o mundo das artes.

Atentos a esse comportamento característico dos moradores de Recife, alguns empresários começam a investir cada vez mais forte nas esculturas. Mas nem sempre foi assim. Se hoje as peças e a lei agradam aos turistas, moradores da cidade e até a alguns empresários, no passado a situação era bem diferente. No início, a lei foi questionada por empreiteiras, desobedecida abertamente e até engavetada pelos militares do golpe de 1964.

A maioria dos envolvidos no projeto, que fazia parte do Movimento Cultural Popular, acabou nos porões da ditadura. Os anos passaram, os militares deixaram o poder e, com o tempo, a arte na construção galgou espaços. A escultura no jardim deixou de significar apenas custos a mais e assumiu características de investimento, atrativo para compradores.

A arte que invade as ruas, aos poucos, entra também nos lares, até mesmo de cidadãos de classe média. Diante da dificuldade de pagar uma obra inédita de Abelardo da Hora, por exemplo, os pernambucanos se unem em consórcios para conquistar o direito de ter uma bela obra em suas salas. Enfim, não se sabe exatamente de onde vem essa ligação do recifense com a arte. A lei de 1961 seria a causa ou uma simples conseqüência desse vínculo?

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